sexta-feira, 12 de março de 2010

Brouwerij Sint Bernard

Localizada em Watou, a apenas alguns kilometros de Poperinge, a cervejaria Sint Bernard produz sete tipo de cervejas e uma cerveja especial para o Natal. As cervejas de produção regular na cervejaria são: St. Bernardus Abt 12, St. Bernardus Prior 8, St. Bernardus Pater 6, St. Bernardus Tripel, Watou Tripel, Grottenbier e St. Bernardus Witbier. Todas elas possuem qualidade impressionante, sendo que a Grottenbier foi escolhida por Michael Jackson (não precisa falar qual né?) como uma das 10 melhores cervejas da atualidade.
Watou é um pequeno vilarejo, localizado na região de West-Vlaanderen, que abriga os últimos campos de lúpulo existentes na Bélgica. Apesar da proximidade da fronteira com a França, a língua falada na região é o neerlandês e a bebida tradicional é a cerveja. Além da St. Bernard, a cervejaria
Van Eecke também está localizada em Watou. Outras cervejarias menores e menos conhecidas, além das míticas cervejas produzidas pela Sint-Sixtusabdij, são originárias da região em torno de Watou e Poperinge, fazendo este lugar especial para os apreciadores de cerveja.
Minha visita a Watou começou no Bed & Breakfast da cervejaria St. Bernard. Lá fomos extremamente bem recebidos pela simpática Jackie, que nos fez sentir em casa em um belíssimo lugar. Recomendo a todos que desejam visitar a região um dia, não deixarem de passar uma noite no B&B da cervejaria. O capricho dos donos do lugar combinado com o charme nautural da região tornam este B&B extremamente aconchegante.

Lá, bem ao lado da cervejaria, tive a oportunidade de degustar todos os rótulos da Sint Bernard com exceção da cerveja de natal e da Grottenbier. O mais legal é que na área de recepção aos hóspedes do B&B, uma bela e ampla sala, duas pequenas geladeiras completamente lotadas de St. Bernardus ficam a disposição para o consumo; o detalhe é que todas as cervejas consumidas são cortesia da casa, assim como o excelente queijo Watou que acompanha perfeitamente as cervejas.

Como se não bastasse tomar ótimas cervejas e degustar ótimos queijos em um belíssimo lugar, nossa anfitriã também possibilitou uma visita à cervejaria.
Fundada em 1946 a St. Bernard é uma combinação perfeita da tradição com a modernidade. Novíssimas linhas de engarrafamento e tanques de fermentação contrastam com o antigo
mashing tun da cervejaria, original de 1946.

A visita à cerverjaria foi conduzida pelo Marco, que me confirmou que as cervejas, Abt, Prior e Pater são produzidas todas com os mesmos ingredientes, mudando apenas, obviamente, as proporções. Além disso ele me disse que o delicioso sabor levemante azedo da Witbier da St. Bernardus não é proveniente de algum tipo de fermentação láctica, mas sim de um processo de produção extremamente difícil que foi desenvolvido com ajuda de Pierre Celis. Além disso, foi justificada a presença de duas Tripel no portfólio da cervejaria. A primeira delas a St. Bernardus Tripel (8% ABV) é um pouco mais adocicada e menos lupulada que a Watou Tripel (7,5%). Ambas são ótimas.

Foi muito interessante ver que a St. Bernard, uma fábrica de cervejas relativamente antiga, que produz cervejas de acordo com uma tradição mais antiga ainda, vem enfrentando os desafios atuais e a concorrência com grandes cervejarias de maneira altamente eficiente. O elevado número das exportações e as constantes reformas e modernizações na cervejaria são, ao mesmo tempo, uma das causas e uma prova, de que a tradição de se produzir cervejas de altíssima qualidade em Watou experimentará, felizmente, ainda muitos anos de glórias.

Abaixo uma antiga garrafa da Abt 12 quando o contrato entre a St. Bernard e a Sint-Sixtusabdij ainda estava em vigor.


Proost!

Fogo na De Dolle Brouwers

Um incêndio em uma cervejaria na região oeste de Flandres foi registrado no último dia 10.
A única vítima do incêndio se encontra em casa se recuperando, a cervejaria não sofreu maiores danos. Para mais informações:
Thirsty Pilgrim e Deredactie.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Brasserie Cantillon

A Brasserie Cantillon, última cervejaria tradicional de Bruxelas, é um ícone dentro da cultura cervejeira que produz um estilo de cerveja diferente de todos os outros. As cervejas da Cantillon, são extremamente ácidas e azedas, sendo que um desavisado ao trombar com uma garrafa de Cantillon em sua frente, bem que poderia tomá-la por estragada. No entanto, o que confere este caráter especial e único às cervejas da Cantillon é o processo de fermentação espontânea característico das cervejas de estilo Lambic.

Reza a lenda que este estilo de cerveja só pode ser produzido em uma região geograficamente limitada: o vale do rio Sena, na cidade de Bruxelas.

Embora seja possível produzir cervejas do estilo Lambic fora da região de Bruxelas, como afirmado a mim por uma funcionária da Cantillon e como provado pelos cervejeiros americanos da cervejaria Allagash, algumas bactérias presentes nas Lambics da Cantillon (cuja contagem atual está em 86 diferentes tipos de agentes de fermentação) como o Brettanomyces bruxellensis e o Brettanomyces lambicus só podem ser encontradas na região de Bruxelas o que torna, de fato, esta Lambic um cerveja única.

Não bastasse o processo de fermentação ser único dentro do mundo cervejeiro, a cervejaria Cantillon é ainda equipada com máquinário que data do século XIX. Todas estas peculiaridades culminaram com a fundação do museu de Bruxelas da Gueuze, com sede na cervejaria Cantillon e que pode ser visitado o ano inteiro. A visita à cervejaria foi um dos motivos que me trouxeram até Bruxelas e com certeza foi algo inesquecível. É incrível ver todo o maquinário muito antigo, alojado em um prédio em condições precárias de conservação. Tal condição não reflete uma incapacidade financeira da cervejaria mundialmente famosa, mas sim uma necessidade para a produção da autêntica Lambic de Bruxelas. Como o fermento e as bactérias necessárias para a produção da cerveja encontram-se no ar, dentro da cervejaria, reformas e pinturas poderiam inviabilizar a produção de cerveja, como parece que, de fato, já ocorreu em certa ocasião.

Por ser um processo espontâneo, a fermentação de uma Lambic não pode ser controlada através da adição de uma quantidade adequada de fermento e isto reflete no longo tempo necessário para a fermentação completa de uma Lambic da Cantillon: três anos. Isso mesmo, todo o processo de fermentação leva 3 anos, embora grande parte dos açúcares presentes no mosto sejam convertidos em álcool nas três ou quatro primeiras semanas de fermentação, quando a Lambic já pode ser consumida.

No entanto, outras cervejas como a Gueuze e as Lambics com frutas demoram um tempo muito maior para serem consumidas. No caso da Gueuze é feito um blend de Lambics com um, dois e três anos, sendo que para as Lambics com frutas é utilizada geralmente cerveja com dois anos de idade.

O portfólio completo de cervejas da Cantillon consiste em 12 cervejas, todas resultantes do processo de fermentação espontânea explicado acima, mas com diferentes blends, tempo de maturação e também com a adição de diferentes tipos de frutas. Todas estas cervejas são produzidas a partir de 70% de malte de cevada, 30% de trigo e lúpulo envelhecido por 3 anos. São usados aproximadamente 20 kg deste lúpulo envelhecido para 10.000 litros de água que, após a evaporação, resultam em 7.500 litros de cerveja. Transformando isto em unidades “compreensíveis” para um cervejeiro caseiro temos o equivalente de 53 gramas de lúpulo para 20 litros de cerveja ao final da fervura. Outro fato interessante a respeito das Lambics é que além da evaporação natural do mosto durante a fervura, 20% do conteúdo de um barril de madeira é perdido ao longo dos três anos em que uma Lambic pode ficar armazenada. E por falar em barril, o andar superior da cervejaria, assim como o térreo são tomados por barris de cerveja fermentando. O longo tempo que a cerveja permanece no barril, permite que teias de aranha sejam criadas por todos os lados. As aranhas também desempenha um papel importante no processo de fabricação da Cantillon. Durante o verão, quando as frutas são adicionadas às cervejas e uma nova fermentação ocorre, insetos são atraídos para dentro da cervejaria pela profusão de aromas frutados emitidos pelos barris de Lambics; é nesta ocasião que as aranhas fazem o papel de combater os insetos evitando uma proliferação maior destes bichos indesejados.

Após a visita a cervejaria (que custa 5 euros por pessoa) é possível degustar (sem custo adicional) uma taça de Gueuze e uma taça de uma Lambic com fruta. Ambas são bastante ácidas e azedas com sabores que enchem toda a boca, a cerveja de fruta experimentada por mim foi a Rose de Gambrinus com adição de framboesas. Já tinha experimentado anteriormente a Cantillon Kriek, com adição de cerejas. Achei que as framboesas se destacaram mais na cerveja do que as cerejas, embora esta impressão possa ter sido causada por diferenças no tempo de armazenamento de ambas as cervejas já que as Lambics tendem a mudar seu sabor com a passagem do tempo.

Nada melhor do que tomar uma Cantillon e esquentar os pés em um aquecedor bem rústico!

Santé!