segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O lúpulo a maconha e uma história mal contada

Foi com grande surpresa que li um texto escrito por Sergio Vidal, no site da marcha da maconha, que explorava as semelhanças entre o lúpulo (Humulus lupulus) e a maconha (Cannabis sativa). Carregado de erros crassos de biologia e interpretações históricas tendenciosas o texto em questão chega a propor que o THC e Lupulina possuem algo em comum; mais a frente o autor do texto teve a audácia de escrever: “Não podemos mais afirmar tão seguramente que cervejeiros e maconheiros são tão distante [sic], afinal, agora sabemos que são da mesma da mesma [sic] família”.

Antes de começar minha análise crítica do texto gostaria de deixar claro que não tenho preconceito contra os usuários da maconha, apesar de, pessoalmente, ser contra a sua legalização. Acho apenas que nós (cervejeiros e a sociedade) não devemos admitir manifestações falsas e tendenciosas como é esta marcha da maconha.
O texto escrito por Sergio Vidal, que parece ter estudado Ciências Sociais, começa com um erro crasso de biologia. O autor afirma que o lúpulo e a maconha são os dois únicos representantes da família Cannabaceae, o que é totalmente errado. Antes de apontar os erros cometidos por Vidal, gostaria de fazer um breve resumo sobre a classificação científica dos seres vivos a fim de que o leitor possa perceber os erros cometidos por Vidal.

Classificação Científica.
A classificação científica dos organismos vivos consiste no agrupamento morfológica das espécies pelas suas semelhanças. O agrupamento morfológico das espécies é uma invenção humana e, portanto, é algo artificial e não natural; como produto da mente humana tal sistema de classificação sofreu várias mudanças nos últimos anos e poderá vir a sofrer mais mudanças no futuro. Atualmente o agrupamento morfológico é constituído por sete hierarquias, são elas: Reino, Filo, Classe, Ordem, Família, Gênero e Espécie.
O lúpulo e a maconha compartilham o mesmo reino, filo, classe, ordem e família; o gênero e a espécie são diferentes. Assim, a família Cannabaceae é composta pelo gênero Cannabis (a qual pertence a maconha), Celtis, Gironniera, Humulus (a qual pertence o lúpulo) e por muitas outros, o que confirma a existência de muitos gêneros dentro da família da maconha e não apenas dois (o do lúpulo e da maconha) como foi dito por Sergio Vidal.

Os erros do texto de Sergio Vidal. O autor prossegue afirmando que o lúpulo é comercializado por algumas empresas americanas como “maconha legalizada”, infelizmente não é dada nenhuma referência de quais seriam as “algumas empresas americanas” que tratariam o lúpulo de tal maneira o que inviabiliza totalmente a afirmação de Vidal.
A seguir Vidal atesta o fato de que a cerveja é a bebida alcoólica mais consumida no Brasil e associa os elevados índices de consumo de álcool nas regiões Sul e Sudeste do Brasil com uma tradição de consumo de bebidas alcoólicas por partes dos imigrantes que colonizaram tais regiões. Com isto ele tenta justificar o consumo da maconha nas regiões Norte e Nordeste, já que esta seria a tradição dos colonizadores de tais regiões. Tal afirmação leviana é muito perigosa na medida em que generaliza o consumo de maconha às populações do Norte e do Nordeste, sendo que isto não é verdade. De fato, os
maiores consumidores de maconha no Brasil são novamente as regiões Sul e Sudeste, como no caso do consumo da cerveja. Será que o consumo de maconha no Sul e Sudeste também tem origens históricas? É claro que não! Qualquer pessoa sabe que as regiões Sul e Sudeste são as mais desenvolvidas economicamente no Brasil, isto resulta em um alto nível de consumo de drogas lícitas ou ilícitas simplesmente porque a população, nestas regiões, possui maior poder aquisitivo e não porque foram colonizadas por este ou aquele povo.
Vidal ainda clama que a existência de uma proximidade botânica (?) entre o lúpulo e a maconha seja responsável pela classificação do primeiro como uma droga, assim como é classificado o segundo. Outra mentira! O lúpulo não é uma droga.
Se fossemos seguir a linha de raciocínio de Vidal seriamos levados a conclusões absurdas tais como achar que vacas são mais semelhantes às baleias do que aos tubarões! Se formos olhar a classificação científica dos três seres vivos citados acima, veremos que a classificação de vacas e de baleias é mais semelhante do que a classificação de vacas e de tubarões. No entanto, assim como a baleia não é um tubarão, e muito menos uma vaca, o lúpulo não é maconha.

O autor termina o texto clamando que não deseja a proibição das bebidas que levam lúpulo em sua composição (o autor escreve “bebidas a base de lúpulo” mas qualquer pessoa que conheça um pouco da fabricação da cerveja sabe que o lúpulo não é a base da cerveja), mas apenas chamar a atenção de que os argumentos e preconceitos contra a maconha são baseados em falsas informações. Infelizmente falsas foram as informações fornecidas por Vidal em sua busca por uma conexão mirabolante e inexistente entre o lúpulo e a maconha.

Ein Prosit!

18 comentários:

  1. Já tinha visto esse blog (o da maconha). O pior é que além de errado tecnicamente é errado na estratégia. Comparar a cerveja à maconha não só não ajuda na descriminalização dessa (que eu sou a favor), como atrapalha, dando munição para os reacinários que querem cada vez mais restrições à cerveja.

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  2. Oi Koloss Bier,

    Legal o blog, parabéns. Ainda não tive tempo de responder ao seu artigo, mas em breve farei! Obrigado pela atenção e logo, logo responderei reforçando os motivos da minha argumentação.

    Grande abraço!

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  3. Não preciso nem comentar sobre o nível de argumentação do tal Sérgio Vidal. Concordo com quase todas as críticas. Mas o assunto me despertou curiosidade e quando fui ler mais sobre botânica e propriedades dos princípios ativos encontrados no lúpulo, não posso deixar de admitir que existem semelhanças. As duas plantas em si são semelhantes: folhas palmadas com bordas serrilhadas contendo de 3 a 5 lóbulos e por aí vai. Em relação às flores, não conheço a flôr da cannabis botanicamente, mas visualmente as semelhanças também são muito grandes.
    Em relação às propriedades dos princípios ativos, também há semelhanças nos seguintes aspectos (com ressalva à "escala" dos sintomas):
    -estimulante do apetite
    -combate à ansiedade
    -propriedades analgésicas
    -combate à insônia
    -propriedades hipoglicemiante (diminui a glicemia, o que estimula o apetite)
    -propriedade estrogência (diminui hiperexcitabilidade masculina) o que talvez tenha relação com a diminuição da produção de espermatozóides que ocorre no caso da maconha.
    Não resta dúvida de que são plantas semelhantes, mas de forma alguma justifica serem colocadas num mesmo patamar, já que até os venenos podem funcionar como remédios se administrados em certas doses e condições. Defendo o uso medicinal e a descriminalização do uso da maconha, mas mantendo a proibição por conta dos usuários irresponsáveis.

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    1. Exatamente. Tão semelhante quanto a vaca e a baleia. Ambas respiram por pulmões, têm filhotes que mamam, emitem sons. Como a maconha, a caça às baleias é proibida, enquanto o consumo de vacas é liberado. Parabéns pela observação, hein!

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    2. KKKK! Gostei Anônimo!

      Concordo plenamente com o Bala.
      Acho também que esse tal de Ein Prosit, poderia muito bem ficar quieto e não tocar no assunto: Sudeste vs Nordeste, mas não, precisou transparecer todo seu preconceito!

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  4. Boa tarde a todos!
    Me chamo Raphael, e me interesso pelos dois temas mencionados no texto do autor do blog. Se permitem expôr minha opinião, a título de acréscimo/debate/conversa, acrescento: pelo que li, NA INTERNET(não posso afirmar a veracidade das informações), os efeitos da lupulina e THC são parecidos sim, como mencionou o amigo Bala. É claro: como mencionado, em escala menor. E concordo quase que plenamente com a equiparação dos usuários de maconha com os de cerveja; alguém por acaso se lembra da Lei Seca, na História? Onde o comércio e consumo de bebidas alcoólicas era ilegal?! É, meu camarada... beber uma cervejinha gostosa podia te mandar pro porão de uma masmorra. E, PELO QUE LI, se não me engano na Revista Superinteressante e Galileu, além de fontes na internet, é que, na época em que a maconha apareceu na mídia, sua produção fora destinada também à indústria de tecidos, o que teria se confrontado(pelos seus baixos preços) com a indústria têxtil. Um figurão influente, na época, que teve seus interesses atrapalhados, resolveu utilizar da sua influência, na mídia e no governo dos Estados Unidos, para difamar a cannabis, nova onda do momento. Somou-se a isso, também, a famosa xenofobia norte-americana, visto que grande parte dos usuários da erva eram mexicanos, que, como todos sabem, migram aos milhares para os EUA(legal ou ilegalmente), oferecendo mão-de-obra barata e com muito mais força de trabalho!

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  5. vou fumar um baseado e pensar...........

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  6. Se você é religioso de qualquer religião, não pode ser a favor da proibição de NENHUMA planta.
    A Maconha, em especial, é utilizada por mulçumanos (que não bebem alcool), hinduístas, rastafares, e muitas religiões menores afros e de índios.
    Para judeus e cristãos, basta citar Gênesis 1:29:
    "E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento".

    Se você é ateu secularista, certamente esstá de saco cheio de políticos, e conhece bem a verdade: a criminalidade associada ao TRÁFICO da maconha MATA MUITO MAIS que a própria maconha, que inclusive, é menos nociva que alcool e tabaco.
    Se você é um político hipócrita, certamente é a favor da criminalização, pois ela gera grande de manda de recursos do estado, logo, planos de investimentos nos quais você político pode embolar uma nota, sem falar em toda a propina desde as fronteiras até as delegacias urbanas, que sempre chegam também até seu bolso.

    Se você é um caretão que pensa que proibir ajuda em algo, minha sugestão é: vai fumar um beck, e depois reconsidera (eu não fumo, mas recomendo para caretas abobalhados que vivem na ilusão de que o "estado" pode resolver alguma coisa ROUBANDO SEUS DIREITOS).

    Deus esteja com vocês humanos (Neste caso não se aplica aos políticos, mas, eles podem vir a se tornar humanos, quem sabe né?! Deus faz milagres...).

    inté... :)

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  7. Um texto sobre o assunto escrito por um botanico:

    http://cervajonka.blogspot.com.br/2012/02/o-clado-da-felicicade.html

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    1. Esse texto do link aí em cima sim fala sobre biologia, lúpulo e maconha de forma bem mais clara.

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  8. O álcool é muito mais importante? Sejamos realistas, o álcool está associado a grande números de acidentes e mortes no mundo.

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  9. Evoluir. A sociedade assim como o mundo evoluem, queiramos ou não, o mundo sempre muda.

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  10. cara vai beber serveja pelo anus vai

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  11. Bom, sou totalmente favorável a descriminalização e uso consciente da maconha, igual já ocorreu com o álccol antigamente com a lei seca nos EUA. Comenta isso porque nunca fumou uma cannabis de boa qualidade e bebeu depois uma IPA também de boa qualidade, recomendo! rs

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  12. Não consigo ver diferença entre fumar maconha e beber. Tudo, se feito em exagero, leva a pessoa a perder as estribeiras. Mas se feito de maneira moderada é apenas um modo de divertir-se usando químicas para relaxar ou incrementar o momento. O tema drogas lícitas ou ilícitas é sempre sensível com muita gente falando pelos cotovelos sem se atentar que , querendo nós ou nao, pessoas se drogam licita ou ilicitamente pelo mundo. Resta saber até que ponto iremos hipocritamente fechando os olhos a discussão e apontando dedos ao inves de termos convesas lúcidas sobre o assunto que interfere tanto na nossa vida e de tantos outros. Vamos pensar ao invés de cuspir a favor ou contra palavras uns nos outros.

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  13. Esse texto é uma bosta. Pegou partes péssimas de argumentação do Vidal para tentar justificar algo sem ARGUMENTO ALGUM. Não tem argumento nesse texto, é como alguém que comenta algo interessante mas vem a pessoa e tenta deslegitimar aquilo por que essa pessoa errou a gramática de uma palavra. Alguns comentários aqui fazem muito mais sentido. E se a favor da cerveja mas contra legalização da maconha não passa de hipocrisia enraizada.

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  14. Amigos, cada um tem o livre arbítrio. Portanto, que cada um seja feliz a sua maneira, desde que ñ incorra em perturbar o alheio. Se é fumando ou bebendo, cada um é responsável por seus atos. Ro. Terra Rica - Parana

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